domingo, 8 de junho de 2008

Dialetos

Há uns cinco anos atrás presenciei um choque de dialetos.
O Ceará, conhecido pelas belezas naturais, pelos problemas sociais sérios e que merecem cuidados, também é conhecido pela forma como as pessoas falam, ou seja, pelo seu dialeto, o "Cearês".
Não que isso seja exclusividade cearense, mas alguns ambientes desenvolvem com mais facilidade expressões e jargões que só são compreendidos por quem os frequenta. Um exemplo são as igrejas que falam o "evangeliquês".
E foi justamente no início da madrugada de um sábado que ouvi uma das frases mais orginais que lembro, onde o "cearês" e "evangeliquês" se confrontavam.
Meu vizinho estava bêbado(até hoje é difícil encontrá-lo sóbrio, pois é dependente do álcool) e discutia em voz alta com sua irmã. Quanto mais eles falavam mais os outros vizinhos ascendiam as luzes para ver o que estava acontecendo. Mas o que chamou minha atenção foi o final daquela discussão:
"Num bote boneco, não cumade! Fique aí na sua!" - disse ele.
"Troço desse só serve pra perturbar nosso juízo!" - disse ela.
"Quem mandou mexer comigo? Agora eu vou lhe aperriar até dizer chega!" - retrucou ele.
"Tá é queimado, tá é queimado, tá é queimado em nome de Jesus!" - bradou ela.
"Ora... Se Jesus já quer é tirar o "nêgo" do fogo! Como é que pode tá queimado?" Perguntou ele, o que pôs fim a discussão.
Minha reação na hora em que ouvi isso foi um misto de riso e choro.
Riso pela forma genial do trocadilho. Não conseguiria ter dado uma resposta melhor e acabar com a discussão. Choro por ouvir o clamor de alguém bem perto de mim e permanecer alheio.
Para escrever essa história pedi a autorização do meu ex-vizinho, que quase me derrubou da cadeira quando foi se levantar do meio fio da Praça Argentina, onde nós converssávamos.
É... Esse cara precisa de apoio. Só assim ele terá a oportunidade de escolher trocar a "água que o passarinho não bebe" por "Água Viva"!
Sei que o desafio é grande: compartilhar com alguém algo que nos custe muito, principalmente o tempo!

Um grande abraço!

7 comentários:

Magela disse...

Olá, Wendel!
Até que enfim dei uma olhadinha no blog!
Criativo e divertido de ler!
Principalmente "Dialetos"; aliás, aqui pra nós, esse é um assunto quase infindável pro nordestino!
Forte abraço!
Tudo de bom!

Eudes disse...

Wendel macho... parece que eu tô é vendo a cena pense num boneco... isto é digno de mandar p/ garras da patrulha. forte abraço e paz sobre a cidade!!

Thais disse...

É muito cômico mas ao mesmo tempo triste ver que nosso(aliás, nosso vírgula) "evangeliquês" do tipo "tá amarrado!", só serve pra nos ridicularizar e provavelmente pra boas gargalhadas do inimigo. Como é que Deus amarra o diabo? Pq eita poder esse q ele tem de ser amarrado aqui e fazer solto,estripulias ali viu?!!!!Não é ridículo e ao mesmo tempo não é de se achar que a "corda" de Jesus tá amarrada de forma frouxa?!!Tomemos cuidado com os nossos dialetos e exercitar mais o que realmente é necessário pra vê-lo bem distante da gente!!Abração

O sol que esquenta meus miolos disse...

cara, teu blog é bem bacana e com cheiro de Ceará.
Deus alumie teus olhos e fortaleça teu calcanhar!
Caio

Jackie Kauffman disse...

Esses dialetos!!! Nunca ninguém saberáo que é "aperriar", fora da "tribo". Deu saudades!! hehehe .Muito bom o texto, Wendel.

Viviane disse...

Enfim tive um tempinho de passear no seu blog.. gostei das idéias..
continue.. estarei voltando sempre q possível..

beijos..

Allison Ambrosio disse...

Cara, tive que rir mais do que chorar! A "lógica etílica" do seu vizinho foi perfeita, mostrando que ele pode até ser bêbado, mas entende melhor de misericórdia e graça que muitos fundamentalistas por aí!

Um abraço grande!