domingo, 29 de junho de 2008

Lembranças do Parque

O "Parque das Crianças".
Foi assim que ficou imortalizado essa área verde no centro de Fortaleza e que durante muito tempo abrigou a Escola Alba Frota.
No Parque foi onde aprendi a ler e escrever. Lembro-me da minha festa de Dr. do ABC: um lenço branco em cada mão e cantando várias canções. No final de tudo, muitas fotos e choros das "Tias", de muitos meninos e meninas.
Hoje, compreendo perfeitamente o sentimento delas!
Tenho que adimitir que dei muito trabalho as minhas professoras. Minha agenda não era assim tão cheia de estrelinhas...hehehehheehh!!!! Era uma frase presente em boa parte dos meses: "O aluno não poderá vir amanhã sem a companhia dos pais ou responsável". Esse era o código dos adultos para entregar as bagunças e as indisplinas nas aulas.
Ah! Também as professoras davam o conceito ao comportamento do dia: Excelente, Ótimo, Bom, Regular e Insuficiente. Confesso que nessa escala eram mais comuns os regulares e insuficientes.
Minha mãe sempre me lembra de uma vez que promovi uma verdadeira farra na sala de aula. O fato é que fiquei pulando sobre as mesas dos meus colegas e ainda convidei outros a fazer o mesmo. Resultado? Sola, ora! hehehehheeh!!!
Outra vez foi a descoberta de um atalho chamado janela. Eu não usava mais a porta da minha sala. Pulava tanto de dentro para fora como de fora para dentro! A sentença fora escrita na agenda e o castigo executado: sola, ora! O pior não foi ter sido privado de brincar na rua, mas a surpreza que me aguardava no dia seguinte. Antes de ir para o Parque, minha mãe me deu umas chineladas. Sem entender aquilo e sem saber o motivo da peia, peguntei aos prantos:
- Mas o que foi que eu fiz?
- Nada - respondeu minha mãe com as últimas três chineladas. Mas ainda vai fazer! Pensa que eu não sei?
Mas nem o fato de tanta sola
tirava de mim a paixão
por aquela escola.
Quantas vezes não fiquei sem recreio por conta das tarefas não respondidas? Tantas e tantas...
Hoje, professor, quando "volta e meia" estou procurando alguma coisa nas minhas agendas, me deparo com um texto do Paulo Freire:
A ESCOLA
Escola é...
o lugar onde se faz amigos,
não se trata só de prédios, salas, quadros,
programas, horários, conceitos...
Escola é, sobretudo, gente, gente que trabalha,
que estuda, que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente, o coordenador é gente, o professor é gente,
o aluno é gente, cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
na medida em que cada um se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de "ilha cercada de gente por todos os lados".
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir
que não tem amizade a ninguém,
nada de ser como tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem, é conviver,
é se "amarrar nela".
Ora, é lógico...
numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz.

domingo, 22 de junho de 2008

Equilíbrio Ecológico

"Galáxia da Mente e Coração"
Toda vida que eu escutava essa música mergulhava numa viagem que me fazia respirar fundo! Nas páginas da minha agenda estava escrito: "Isso sim é que é equilíbrio ecológico! Onde o leopardo passeia com a corsa..."

DEREPENTE EU ME VEJO NUMA NOVA CIDADE
ONDE NÃO HÁ GUARDA E NEM HÁ LADRÃO
ONDE TODO EMPREGADO É AMIGO DO PATRÃO
ONDE QUALQUER SER VIVENTE, VIVE EM PAZ COM SEU IRMÃO

ONDE O LEOPARDO PASSEIA COM A CORSA
ONDE NINGUEM FORÇA A NATUREZA PRA VIVER
ONDE A ANDORINHA VOA COM O GAVIÃO
ONDE AINDA O CORAÇÃO É A FONTE DO SABER

DEREPENTE EU ME VEJO NUMA NOVA CIDADE
ONDE NÃO HÁ CHORO E NEM RANGER DE DENTE
ONDE OS PEIXES DO RIACHO NÃO RESPIRAM DETERGENTE
ONDE NÃO HÁ FALTA D'AGUA E TAMBÉM NÃO HÁ ENCHENTE

ONDE O LEOPARDO PASSEIA COM A CORSA
ONDE NINGUEM FORÇA A NATUREZA PRA VIVER
ONDE A ANDORINHA VOA COM O GAVIÃO
ONDE AINDA O CORAÇÃO É A FONTE DO SABER

"SENHOR QUANDO O DIA AMANHECER E ESSE SONHO EU VIVER
A ESPERANÇA DE MORAR NO CÉU
E DE VER TODA ESSA VELHA TERRA, TRANSFORMADA NUMA TERRA NOVA
ONDE MANA LEITE E MEL."

("Sonho", Novo Alvorecer)

domingo, 15 de junho de 2008

Dom Quixote

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
.
Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz
.
Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!
.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.
.
Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!"
.
António Gedeão, in Movimento Perpétuo

domingo, 8 de junho de 2008

Dialetos

Há uns cinco anos atrás presenciei um choque de dialetos.
O Ceará, conhecido pelas belezas naturais, pelos problemas sociais sérios e que merecem cuidados, também é conhecido pela forma como as pessoas falam, ou seja, pelo seu dialeto, o "Cearês".
Não que isso seja exclusividade cearense, mas alguns ambientes desenvolvem com mais facilidade expressões e jargões que só são compreendidos por quem os frequenta. Um exemplo são as igrejas que falam o "evangeliquês".
E foi justamente no início da madrugada de um sábado que ouvi uma das frases mais orginais que lembro, onde o "cearês" e "evangeliquês" se confrontavam.
Meu vizinho estava bêbado(até hoje é difícil encontrá-lo sóbrio, pois é dependente do álcool) e discutia em voz alta com sua irmã. Quanto mais eles falavam mais os outros vizinhos ascendiam as luzes para ver o que estava acontecendo. Mas o que chamou minha atenção foi o final daquela discussão:
"Num bote boneco, não cumade! Fique aí na sua!" - disse ele.
"Troço desse só serve pra perturbar nosso juízo!" - disse ela.
"Quem mandou mexer comigo? Agora eu vou lhe aperriar até dizer chega!" - retrucou ele.
"Tá é queimado, tá é queimado, tá é queimado em nome de Jesus!" - bradou ela.
"Ora... Se Jesus já quer é tirar o "nêgo" do fogo! Como é que pode tá queimado?" Perguntou ele, o que pôs fim a discussão.
Minha reação na hora em que ouvi isso foi um misto de riso e choro.
Riso pela forma genial do trocadilho. Não conseguiria ter dado uma resposta melhor e acabar com a discussão. Choro por ouvir o clamor de alguém bem perto de mim e permanecer alheio.
Para escrever essa história pedi a autorização do meu ex-vizinho, que quase me derrubou da cadeira quando foi se levantar do meio fio da Praça Argentina, onde nós converssávamos.
É... Esse cara precisa de apoio. Só assim ele terá a oportunidade de escolher trocar a "água que o passarinho não bebe" por "Água Viva"!
Sei que o desafio é grande: compartilhar com alguém algo que nos custe muito, principalmente o tempo!

Um grande abraço!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O tempo nosso de cada dia

Escrevi um texto com o mesmo título faz algum tempo. Lembro-me que foi logo após o aniversário do Werbston. Naquela noite, resolvi ler uma música que ouvira dentro do ônibus e que mexeu muito comigo. Por vezes isso acontece!
Abro parêntese...
De vez em quando me pego fazendo as contas do tempo. A última vez que vi as pesquisas do IBGE sobre a expectativa de vida dos brasileiros e brasileiras foi em 2006: a média nacional era de 71,9 anos; enquanto a média da região Nordeste era de 69 anos. No Sul: 74,2 anos; no Sudeste: 73,5 anos; no Centro-Oeste: 73,2 anos; e no Norte: 71 anos.
E para essa problemática tentava a "solucionática" de Moisés: "Ensina-me ó Deus a contar os meus dias para que eu alcance um coração sábio."
E fazia as contas...
Nasci em 1974. Pela média nacional, viveria (1974 + 71,9) até 2046, aproximadamente. Pela média do Nordeste, viveria (1974 + 69) até 2043. Assim:
Até 2046: 34 anos x 365 dias = 12.410 dias vividos.
2046 - 2008 = 38 anos a viver ou 38 anos x 365 dias = 13.870 dias a viver.
Se contados os anos bissextos temos de 1974 a 2004 mais 8 dias. Assim, os dias vividos passariam para 12.418 dias. De 2008 a 2046 temos mais 12 dias. Os dias a viver passariam para 13.882.
Paranóia constantemente confrontada pela Metanóia! Por isso não vou fazer as contas se fosse viver até 2043. Fecho parêntese.
Estávamos, os homens, num círculo na sala de estar, enquando as "meninas" também se organizaram num dos quartos.
O papo cabeça estava a mil por hora! Todos falavam. E lá pelas tantas, resolvi fazer uma pergunta:
"Posso ler uma coisa pra vocês?" - Perguntei meio receoso, achando que ia falar besteira.
"Diz lá, cara!"- Respondeu o Werbston, o anfitrião e aniversariante, o que me deixou muito à vontade.
Foi aí que eu abri minha agenda e comecei a ler:

"Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar".
("Epitáfio", Sérgio Britto)

Não sei os outros, mais teve um deles que bebeu junto comigo da essência dessa letra. Pude ver nos olhos dele! São em ocasiões como esta que podemos dizer: "ganhei o dia! Ufa! Não tô ficando doido!".
Toda vez que me pego na tentativa (e porque não dizer tentação!) de contar o tempo com o rigor "cartesiano" fecho os meus olhos e me vem à mente aquele dia...
Posso ver todos ali sentados em círculo. Posso ouvir minha voz e as batidas apressadas do meu coração.
Quero encerrar este texto com uma expressão que vi no filme "Sociedade dos Poetas Mortos" e no site do Rubem Alves: "Carpe Diem", que quer dizer "aproveite o dia"; "colha o dia". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.

Abração!
"PaZ para os Irmãos!"




domingo, 25 de maio de 2008

EstAção

O Centro de Fortaleza reserva para além do horário comercial uma porção de "navegadores solitários".
Quando fui convidado por uns amigos para participar do Projeto EstAção, não imaginava como a ação desenvolvida por eles poderia reverberar na estrada.
Confesso que, na primeira vez que fui até a Praça da Estação, estava ancioso por encontrar as pessoas com quem meus amigos interagiam nas noites de sábado à noite.
A idéia é simples: Sanduíches e suco no primeiro momento; e ouvido, atenção, abraços, sorrisos, compaixão... no segundo momento.
Fiquei e ainda fico impressionado com o poder desse gesto!
Quando chegamos na praça, os "navegadores e navegadoras solitári@s" vão aparecendo um por um. São pessoas que não têm nada... nada mais que seus trapos e o ar que respiram! Alguns saem "do sonho feliz e cidade" em busca de trabalho, mas acabam nas ruas. Outros, ao contrário, deixaram tudo e todos para viverem à deriva... São músicos, donas de casa, ministros do evangelho, filhos e filhas rebeldes, velhos que deixam seus lares em busca de algo que lhes complete.
Depois do primeiro encontro passei a reclamar menos lá em casa de "detalhes tão pequenos que eu insistia em tornar grandes demais para esquecer", como chegar da rua, com muito calor, sede e não ter água gelada pra beber. Só o filtro de barro "olhando" pra mim!
Agora, sou invadido por um sentimento que não sei explicar...
Me faltam palavras...
Lembrei de "Moby Dick em Lisboa"!
"Em tempos admirei cegamente estes homens, a sua coragem, o desprendimento com que se deixam ir entre mar e céu, entregues a si próprios e à fortuna que tanto protege os audaciosamente como friamente os elimina. Ainda hoje lhes reservo um canto do coração. Lá uma vez por outra, perde-se o navegador na imensidão dos oceanos. (....) Toda a gente quer ajudar de qualquer maneira, telefonar aos bombeiros ou aos hospitais, arregaçar as mangas. Em espírito vai tudo ao cais ou à praia deitar olhos para o oceano, a ver se aponta a vela. E não se fala noutra coisa. Estas duas palavras (navegador e solitário) estão cheias de tal prestígio que dizê-las ou ouvi-las, é assim como sentir um vento de heroísmo a agitar os cabelos e as gravatas. De um momento para o outro, o mundo fica cheio de heróis sem oportunidade nem emprego. (....) A humanidade sente-se regenerada, humanitária. Este mundo tem coisas. Porque entretanto, e antes, e depois, passam todos os dias ao nosso lado outros navegadores solitários, doentes uns, desafortunados, sem casa nem trabalho, sem alegria, sem esperança – e ninguém atravessa a rua para lhes dizer : « Estás perdido, amigo? Estás perdido ? »
(José Saramago, Moby Dick em Lisboa, Crônica.)

Talvez, todos nós pudéssemos fazer algo que esteja ao nosso alcance!
Um bom começo seria viver os valores da "Nova Cidade Celestial" aqui na Velha Cidade.
Um grande abraço a Tod@s!

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Profeta Popular

Nordestino sim, nordestinado não.
(Patativa do Assaré)

Nunca diga nordestino
Que Deus lhe deu um destino
Causador do padecer
Nunca diga que é o pecado
Que lhe deixa fracassado
Sem condições de viver

Não guarde no pensamento
Que estamos no sofrimento
É pagando o que devemos
A Providência Divina
Não nos deu a triste sina
De sofrer o que sofremos

Deus o autor da criação
Nos dotou com a razão
Bem livres de preconceitos
Mas os ingratos da terra
Com opressão e com guerra
Negam os nossos direitos

Não é Deus quem nos castiga
Nem é a seca que obriga
Sofrermos dura sentença
Não somos nordestinados
Nós somos injustiçados
Tratados com indiferença

Sofremos em nossa vida
Uma batalha renhida
Do irmão contra o irmão
Nós somos injustiçados
Nordestinos explorados
Mas nordestinados não

Há muita gente que chora
Vagando de estrada afora
Sem terra, sem lar, sem pão
Crianças esfarrapadas
Famintas, escaveiradas
Morrendo de inanição

Sofre o neto, o filho e o pai
Para onde o pobre vai
Sempre encontra o mesmo mal
Esta miséria campeia
Desde a cidade à aldeia
Do Sertão à capital

Aqueles pobres mendigos
Vão à procura de abrigos
Cheios de necessidade
Nesta miséria tamanha
Se acabam na terra estranha
Sofrendo fome e saudade

Mas não é o Pai Celeste
Que faz sair do Nordeste
Legiões de retirantes
Os grandes martírios seus
Não é permissão de Deus
É culpa dos governantes

Já sabemos muito bem
De onde nasce e de onde vem
A raiz do grande mal
Vem da situação crítica
Desigualdade política
Econômica e social

Somente a fraternidade
Nos traz a felicidade
Precisamos dar as mãos
Para que vaidade e orgulho
Guerra, questão e barulho
Dos irmãos contra os irmãos

Jesus Cristo, o Salvador
Pregou a paz e o amor
Na santa doutrina sua
O direito do bangueiro
É o direito do trapeiro
Que apanha os trapos na rua

Uma vez que o conformismo
Faz crescer o egoísmo
E a injustiça aumentar
Em favor do bem comum
É dever de cada um
Pelos direitos lutar

Por isso vamos lutar
Nós vamos reivindicar
O direito e a liberdade
Procurando em cada irmão
Justiça, paz e união
Amor e fraternidade

Somente o amor é capaz
E dentro de um país faz
Um só povo bem unido
Um povo que gozará
Porque assim já não há
Opressor nem oprimido

segunda-feira, 12 de maio de 2008

"Os Sonhos Não Envelhecem..."

Quando estava no curso de Licenciatura Plena em História da Universidade Estadual do Ceará participei de muitos Congresso de Estudantes. Mais adiante vocês terão a oportunidades de saber mais um pouco sobre eles.
Nesses congressos, geralmente, as propostas, para o movimento estudantil, universidade e sociedade são apresentadas em forma de teses. Estas teses recebem "pseudônimos", muitas vezes trechos ou frases de músicas e poemas. Lembro-me de algumas: "Nada do que foi será"; "Quem vem com tudo não cansa"; "A beleza de ser um eterno aprendiz"; "Frutos da crise, sementes da ousadia"; "Pro dia nascer feliz"; "Somos quem podemos ser...Sonhos que podemos ter..."; e por aí vai...
Mas teve um congresso que me marcou não pelas teses defendidas ou por aquela vencedora ao final dos dias de debates. Uma das correntes do movimento estudantil escolhera uma letra, "Clube da esquina nº 2", para divulgar sua tese, que se chamava "Os Sonhos Não Envelhecem".
O movimento estudandil foi uma das minhas escolas. Foi lá que aprendi a controlar minha timidez, além de ter contribuído diretamente na minha formação. E esse mesmo movimento estudantil começava a entrar em colapso, uma vez que muitos projetos de esquerda resolveram optar pela social democracia, chegaram ao governo e paradoxalmente tiveram (e estão tendo) êxito numa conjuntura neoliberal, sem ruptura ideológica. Conclusão: a galera estava cantando como o poeta "ideologia, eu quero uma pra viver!"
Capistrano de Abreu, na busca por identificar os responsáveis pela construção do edifício colonial, construiu um pensamento que ainda ecoa nos nossos dias; "o povo, durante trezentos anos capado e recapado, sangrado e ressangrado."
Dura realidade e sentimento de impotência...
Não sei se soava como consolo ou como alívio para os meus pés cansados até aquele momento...

"Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem se lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, asso, asso
Asso, asso, asso, asso, asso, asso
Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos
Calmos, calmos, calmos
E lá se vai mais um dia
E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva
De um rio, rio, rio, rio, rio
E lá se vai...(...)"
(Milton Nascimento / Lô Borges / Márcio Borges)


E foi nessa atmosfera que a poesia saltou no meio daquelas teses que nada podiam reverter aquele quadro de decadência e desarticulação.
Muitos dias se passaram e os anos também!
Sempre que encontro meus "companheir@s" de movimento estudantil, eles lamentam os tempos que não voltam mais e da apatia, da falta de mobilização dos estudantes de hoje! Também lamentam o fato do trabalho ter-lhes absorvido de tal forma, que acham impossível sair da órbita "casa-trabalho-casa".
Quando digo que não parei de caminhar, que não me filiei a nenhum partido político e que as bandeiras que levanto hoje são outras, vejo nos olhos deles um brilho especial, que me motiva e me faz lembrar: "É... José! Os Sonhos Não Envelhecem!"
E o que se chamava estrada encontrou uma "Nova Chama", que se fez "lâmpada para os pés e luz para o caminho".
Também queria dizer para vocês que estão passando por essa estrada:

"Sonhos não envelhecem...
envelhecem... os que não sabem sonhar bonito!
O rosto da alma não sofre a ação do tempo!
Sobrepuja-o com discrição... dignidade e contentamento!
Homens... máquinas que guerreiam pela ânsia da vida...
desejando a qualquer custo
alcançar o primeiro lugar no pódio...
na conquista da taça... no mundo dos negócios...
não sabem sonhar bonito!
Não vêem mais as árvores...
e nem o brotar de novas flores...
Não sentem o frescor da chuva e...
nem o cheiro da terra molhada!
Chutam as pedras... sem tirá-las do caminho!
A dialética da vida...
não se interpõe em nossos pensamentos!
nós é que a enquadramos...
dentro dos padrões de vida que escolhemos!
A visão comprometida pela luta... nos leva a torvelinhos e...
às vezes afundamos... sem voltar à tona!
Visão ampla...é a visão da essência...
a visão que os poetas enxergam!!!
Sonhos não envelhecem...
se o renovarmos a cada dia...
E nem as almas de quem souber sonhar bonito!
("Sonhos não envelhecem", Iracema Zanetti )

"É... Amig@! Os Sonhos Não Envelhecem!"
Abraço a Tod@s!

domingo, 4 de maio de 2008

Está Chovendo!

O Semi-árido brasileiro tem uma paisagem exuberante!
Não é difícil compreender o amor dos poetas e artistas populares por este pedaço de chão.
No último fim de semana fui participar da Consulta da Fraternidade Teológica Latino-Americana/Nordeste. Passei por quatro estados: Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e cheguei nas Alagoas.
Tudo Verde! Mas as terras em poder de poucos!
Nosso país não poderá equacionar muitos dos nossos problemas sociais sem que antes faça uma divisão de terras que seja justa.
Me alegrei e até cheguei ficar com os olhos marejados de ver a caatiga viva e viçosa. Aí lembrei do "Seu Luis", filho de Januário:

"Já faz três noites
Que pro norte relampeia
A asa branca
Ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas
E voltou pro meu sertão
Ai, ai eu vou me embora
Vou cuidar da prantação
A seca fez eu desertar da minha terra
Mas felizmente Deus agora se alembrou
De mandar chuva
Pr'esse sertão sofredor
Sertão das muié séria
Dos homes trabaiador
Rios correndo
As cachoeira tão zoando
Terra moiada
Mato verde, que riqueza
E a asa branca
Tarde canta, que beleza
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza
Sentindo a chuva
Eu me arrescordo de Rosinha
A linda flor
Do meu sertão pernambucano
E se a safra
Não atrapaiá meus pranos
Que que há, o seu vigário
Vou casar no fim do ano."

"A Volta da Asa Branca" (Luis Gonzaga, Humberto Teixeira e Zé Dantas).

Bem...
Ainda não foi dessa vez que achei minha "Linda Flor"!
Quanto ao vigário? Como disse o poeta: "Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade, disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade". Estou com saudade, viu cara?!!!
Quanto à "safra" desse ano? Essa foi uma das boas notícias que recebi a caminho de Maceió, ainda no dia 1º de maio, dia do trabalho. Nossa ONG conseguiu seu primeiro financiamento. Nossas atividades já estão asseguradas durante 2008. Eita inverno bom!!! heheheheh!!!!
"Ai, ai, eu tô alegre
Mais alegre a natureza ". hehehehehehhehheheheh!!!!!!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A Fortaleza de Chicuta

Essa é nossa primeira parada. Escolhi levar vocês até Picos, no Piauí, por ter sido uma viagem marcante: mais um ciclo na minha vida se fechava. Era a hora de decidir matar mais uma vaca sagrada na minha caminhada. Explico... Tinha que decidir continuar seguir a correnteza, ou seja, fazer um concurso público, como muitos dos meus colegas de faculdade optaram, ou empreender um sonho. Eu era estagiário de um Banco Público Federal e trabalhava no suporte à prestação de contas das execuções extrajudiciais. Havia a possibilidade de continuar trabalhando através de uma das empresas que prestavam serviço a esse Banco. Que situação! Não foram poucas as pessoas que me chamaram de doido e de irresponsável, embora utilizassem palavras mais amenas! Diziam não haver o que pensar. Minha geração sofre com a falta do pleno emprego e tem sentido na pele os efeitos da "laborização do trabalho".
Precisava de um refúgio onde pudesse ponderar "grama por grama", vantagens e desvantagens, e o que eu dizer lá em casa. Tinha que transmitir segurança e convicção já que envolvia um importante passo na estrada, embora meus pais não me pressionassem a nada.
Foi aí que resolvi aceitar o convite do meu amigo Francisco para conhecer sua terra natal e celebrar com os seus a chegada de 2008. Ele, a Vivi e eu fomos recebidos com um churrasco de bode, que tinha como entrada uns deliciosos bolinhos fritos, que eram uma das especialidades da casa.
Nesses dias que estive hospedado na cada dele, três coisas contribuíram com suas singularidades e me falaram profundamente com e sem palavras.
A primeira delas foi constatar que aquela casa tem uma vista privilegiada. Está no alto de um dos montes que cercam boa parte da cidade. Abaixo de nós os telhados e centenas de antenas parabólicas, abertas à recepção do sinal da "Boa Notícia", como se fossem muitas bacias, prontas a receberem "Água Viva".
A segunda foi sentir durante os dias uma brisa quente, que entrava pelas minhas narinas como um "novo sopro", o fôlego necessário para as próximas léguas da estrada, embora tivesse que escolher por uma das vias da bifurcação que estava diante de mim. Ao cair da tarde, na virada do dia, O Criador ouvia atentamente a criatura em suas ponderações. Já nas noites, a lua ia saindo timidamente por trás de um dos montes, como se me perguntasse: "e aí, já sabe por onde ir?". Tive assim a certeza de que estava no local certo, numa fortaleza, com uma boa visão da situação!
E a terceira foi ter conhecido um homem simples, porém visionário! Alguém que optou em investir na educação dos seus três filhos a ter sua casa mobiliada. Sem falar no seu sonho de deixar o emprego noturno e abrir seu próprio negócio. Estava diante de uma pessoa que tinha muito mais responsabilidades do que eu, mas que não hesitou diante de suas vacas sagradas. Estou falando de "Seu Chicuta", como é chamado carinhosamente pelos seus e por onde ele passa.
Regressei à Fortaleza ainda na atmosfera que envolve o dia primeiro de janeiro de todo ano, com muito otimismo, esperança e muitos planos. Mas também com a convicção de que me depararia, logo no dia 02 de janeiro, com a mais dura realidade, porém com uma diferença: iria levar a frente o sonho de construir o Instituto Sinergia Social, uma ONG que eu e mais quatro amigos fundamos em novembro de 2007, mas que ainda não havia sido registrada. Mas essa é uma outra história...
Não podia imaginar que, ao sair da Fortaleza dos "verdes mares bravios", iria encontrar a Fortaleza nas palavras cadenciadas e cheias de emoção de "Seu Chicuta", pai do meu amigo Francisco. Alguém que se emociona ao lembrar do dia em que recebeu o sinal da "Boa Notícia" e de como a "Água Viva" saciou-lhe a sede. Gente que não contém as lágrimas ao saber que está chegando a hora da partida de seus hóspedes. Prova viva de que "maior é aquele que serve"! Espero um dia voltar a sua modesta casa, "Seu Chicuta"! Aliás, mais do que uma modesta casa! Uma verdadeira Fortaleza!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Em construção...

Esta é uma das possibilidades de compartilhar algo da minha tríade indivisível.
Em breve, estarei publicando neste espaço o que vejo na estrada, que se chama vida!
Ah! De onde surgiu o nome?
Tenho a mania de escrever frases, pensamentos, músicas, orações... nas páginas da minha agenda. E nelas estavam alguns nomes para este blog. Até que eu fui para o chá de baby do Lucas, e o que parecia ser mais uma música, soou diferente aos meus ouvidos. O mundo que pulsa numa velocidade frenética versus o desafio de andar devagar, "como um velho boiadeiro levando a boida".
Quantas vezes li a história de um certo camarada, que saiu de Ur dos Caldeus, que andava conforme o passa do gado? Muitas vezes...
Quantas vezes não ouvi o Chico cantando que a roda viva carregou "a mais linda roseira",

"a viola ", "a saudade"...
Só não levou meu destino porque não tenho um.
E como disse o poeta...
"Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz".
Você está convidad@ a caminhar quantas léguas quiser comigo!

Estraaadaaa à viiiistaaaaaa!